Ouvir o vento é como esperar por alguém, alguém sem rosto, sem nome, sem vida própria, mas com muitas vidas agregadas.
Parece muito vago tudo isto, mas que melhor adjectivo para definir este sopro, por vezes forte que irrompe portas e janelas dentro, outras vezes fraco com uma brisa suave que acaricia corpos desnudados de malícia? Eu chamar lhe ia incompreendido, incerto, ou até mesmo pobre vagabundo envolto em solidão e desespero. Mensageiro de muitos, que em seus recantos segredam seus vícios, suas amarguras, seus desejos e esperanças em encontrar quem se perdeu pelo estreito e escuro caminho das tentações inesperadas, mas que lhes proporcionaram à alma sensações antes nunca experimentadas e por isso não regressaram, nem nunca o farão, pois o sabor do desconhecido entrelaçou-se no destino e deu novo rumo a um barco que já nada espera de um cais já em tempos atracado. Pobre vento, que não és mais que uma marioneta, vais vens, ora para norte, ora sul, ora fraco e forte, calmo e revoltado. Quando te decidires a tomar o teu rumo leva estas palavras como companhia pois a solidão é um fardo que nem tu mereces carregar sozinho.

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